terça-feira, 10 de abril de 2007

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Pensar o que quer que seja em termos de Arte, coloca sempre a quem o faz, problemas de vária índole; começando pelos espaços físicos, a programação destes, as limitações educacionais (culturais) da população em geral a quem a programação será dirigida, os meios técnicos a disponibilizar e, fundamentalmente, as questões éticas, morais, políticas (não partidárias!) e de dignidade humana que devem estar subjacentes e serem por isso suporte de toda a actividade artística, entre muitas outras questões que seria fastidioso enumerar.

De qualquer das formas em relação a uma atitude, neste caso específico “artística”, é importante delinear alguns objectivos. Como afirmam Jean-Claude Landier (animador em centros de actividades dramáticas e faz parte do Groupe de Recherches de Paris III) e Gisèle Barret ( doutorada em pedagogia da expressão dramática e professora na Universidade de Montreal e no Instituto de Estudos Teatrais de Paris III) “o desenvolvimento das mais variadas actividades expressivas e artísticas ( música, canto, dança, expressão dramática, teatro) permite algumas esperanças sobre a revivescência do senso criativo no nosso país. (…) o desejo de lutar contra a anemia cultural desponta no horizonte. O Maio de 68 deixou-nos como herança um slogan, “a imaginação ao poder”, que felizmente não perdeu actualidade!”

Para a nova sociedade nova que aí vem e se pretende, há que começar a formar na de hoje, a partir de agora, espíritos flexíveis, empreendedores, aptos a sair dos caminhos batidos.

Mas em termos mais gerais ao nível das Artes coloca-se sempre a eterna questão dos subsídios. Devem ou não serem subsidiadas as Artes? A grande maioria da população, muito possivelmente, dirá que não, esquecendo-se que toda a economia actual – nos mais diversos sectores – tem uma forte componente subsidiária: da agricultura às pescas, do turismo ao desporto, da exportação comercial e industrial aos transportes, etc..

Na minha opinião e, por exemplo, na opinião mais que avalizada de António Pinto Ribeiro, as artes necessitam de ser subsidiadas. E esta não é apenas uma questão portuguesa. Desde a União Europeia ao Canadá e à Austrália a política de apoio subsidiário é muito importante e abrange desde a criação ao apoio à circulação exterior. Até mesmo na super potência americana (leia-se Estados Unidos da América) existe uma actividade subsidiária exercida por órgãos governamentais federais e estaduais de que o melhor exemplo é o National Endowment for the Arts, organismo responsável pelo apoio à criação artística.

Voltando a Portugal e recorrendo uma vez mais a António Pinto Ribeiro, “A ideia de que o subsídio às Artes e às actividades culturais é um desperdício tem a sua raiz mais profunda na desvalorização que estas actividades têm na sociedade portuguesa, desvalorização esta agravada pelo fosso entre práticas modernas e contemporâneas minoritárias (portanto com mais necessidade de serem subsidiadas) e um ambiente de cultura ‘kitsch’ dominado pelos produtos das televisões generalistas e seus sucedâneos numa combinação, de facto, rentável. (…) É naturalmente um problema de iliteracia mas também de desconhecimento dos mecanismos de promoção pelos quais se rege o mercado das artes.”

Mas muito mais que o subsídio à criação a preocupação de agentes e programadores culturais, detentores dos poderes decisórios de políticas culturais e de todos os que têm como preocupação premente o banir da iliteracia cultural e educacional, deverá ser o do subsídio que possibilite a formação e o crescimento de públicos de modo a que, a longo prazo, estes possam constituir, não a única fonte de recurso dos artistas, mas a mais importante. Ou seja, como mais uma vez afirma A. Pinto Ribeiro, “… cabe também aos criadores desenvolver uma relação mais directa e prática com a comunidade (espectadores/contribuintes/fruidores) em que estão inseridos, de forma a que esta valorize a sua actividade e, a passo e passo, a considere necessária.” Até porque amputando as políticas subsidiárias até se chegar ao ponto anterior é correr o risco de construirmos e mantermos praticamente uma sociedade de meios urbanos e suburbanos sem teatro, sem música, sem dança, sem pintura, sem livros, sem suplementos literários ou de arte, sem jornalistas de cultura, sem filmes, sem artistas, sem exposições de arte, sem documentários de cinema, sem crítica…

E a vida, como seria?

Mas falar de cultura impõe a definição desta. Seja a definição académica ou o significado livresco ou de dicionário, independentemente destas não poderem fugir muito do significado da raiz etimológica da palavra. Tendo a sua origem no latim o seu significado seria “cultura da terra e do espírito”. Deixando para trás sem menosprezar de maneira alguma o cultivo da terra (abençoada seja!), segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora de 1993 ‘cultura’ significa “aplicação do espírito a uma coisa; desenvolvimento dos conhecimentos e das capacidades intelectuais, quer em geral, quer num domínio particular; maneiras colectivas de pensar e de sentir, conjunto de costumes, de instituições e de obras que constituem a herança social de uma comunidade ou grupo de comunidades; conjunto de conhecimentos de alguém; sabedoria; elegância”. Depois das definições académicas só nos resta a observância do fenómeno cultural através dos vários olhares filosóficos, o que nos levaria a um gasto inusitado de páginas plenas de palavras (ideias) que, no mínimo, nos transportariam para o universo dos Tratados.

Por uma única razão, a de despertar consciências, valerá a pena aflorar a questão, lembrando que foram os sofistas os primeiros a elaborar um conceito de cultura centrado na formação do ser integral do homem, e não numa suma de noções. Isto por um lado, mas por outro os cínicos e os estóicos defenderam a luta contra o artificial e antinatural, preconizando uma vida segundo a natureza. Mas é o séc. XVIII que nos traz uma reflexão sistemática e profunda sobre a essência da cultura, que atinge o seu apogeu com Hegel e Nietzsche, entre outros, que recusando a hegemonia do positivismo que pretende um conhecimento objectivo do real, a filosofia da cultura, partindo da realidade espiritual como fundamento, faz radicar os objectos culturais no poder criador do espírito (os mitos, as lendas, as crenças, os costumes, etc..).

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